segunda-feira, 20 de julho de 2020

Nicarágua: médicos lidam com o Covid sob o terror esquerdista

Os ditadores só aparecem  nos grafitti das ruas de Nicáragua
Os ditadores só aparecem  nos grafitti das ruas de Nicáragua
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






Na Nicarágua o pessoal médico enfrenta heroicamente a pandemia, mas o sistema de saúde pública foi afundado pelo chavismo e num ambiente de terror trabalha para esmagar qualquer dissidência, descreveu reportagem de “La Nación” de Buenos Aires.

Os corredores dos hospitais estão empapelados com propaganda política, fotos de “heróis e mártires” sandinistas, do presidente Daniel Ortega e da vice-presidente Rosario Murillo, que parecem espionar como o Big Brother da conhecida novela “1984”.

Do lado de fora, nas delegacias e ministérios ondeja a bandeira vermelha e preta do partido governante.

“Lá dentro tudo é secreto”, disse a anestesista Maria Nela Escoto, despedida com mais uma dúzia de médicos especialistas por criticar o tratamento da pandemia por parte do governo.

Ortega alentou o povo a viver de forma “normal”. O governo só contabilizava 83 mortes e 2500 casos confirmados, quando o Observatorio Ciudadano, uma rede de médicos independentes, falava de 2087 decessos e pelo menos 7402 casos suspeitos.

A polícia faz “enterros expressos” pelas noites em cemitérios vigiados.

Durante quase três meses o pessoal sanitário ficou proibido de usar o material especifico contra a epidemia “para não alarmar'' os pacientes.

A Dra. Escoto foi expulsa do hospital Lenin Fonseca porque assinou junto com quase 600 médicos, uma carta pública pedindo equipamentos de proteção para os trabalhadores da saúde em hospitais públicos.

As expulsões foram ordenadas pelo Dr. Gustavo Porras, líder sindicalista que é deputado e presidente sandinista do Parlamento de Nicarágua.

O oncologista pediátrico Gustavo Méndez ficou atendendo em sua casa após ser expulso do Hospital de Niños porque defendeu uma quarentena que o governo bolivariano não gostava
O oncologista pediátrico Gustavo Méndez ficou atendendo em sua casa
após ser expulso do Hospital de Niños
porque defendeu uma quarentena que o governo bolivariano não gostava
Os médicos banidos contam que não se pode “filtrar informação” sobre o que acontece nos hospitais. E quem o faz “é posto imediatamente na rua”.

Nem os jornalistas podem ingressar nos centros de saúde e se tentam se aproximar com câmaras são detidos pela Polícia ou ativistas do governo.

“Os trabalhadores da saúde estão desanimados e têm medo. Temem se contagiar e perder o emprego”, disse o médico Fernando Rojas, anestesista também demitido do hospital Bertha Calderón.

Rojas foi admoestado várias vezes por pedir máscaras e luvas para os funcionários.

“A subdiretora do hospital, Ana Lídia Ortiz, vigia pessoalmente os médicos e os fotografa nos corredores. Faz trabalho de espião”, garante o médico.

A principal oncologista, Indiana Talavera, foi removida há três meses por solicitar máscaras. “Isso fez desabar o serviço de oncologia”, lamentou.

As autoridades de saúde recusaram atender a manifestantes oposicionistas feridos pela Polícia, registrou a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) que contabilizo 328 mortos e mais de 2.000 feridos nos protestos.

No hospital infantil Vélez Páiz um vigia “tirou a máscara da cara de um médico”', contou Rojas.

Dos 800 empregados do hospital Bertha Calderón, 250 foram enviados “em repouso” a suas casas, com sintomas de coronavírus.

Até 1º de julho morreram por coronavírus pelo menos 38 médicos, 22 enfermeiros e 11 funcionários administrativos.

Para reduzir as cifras oficiais do Covid-19, o governo ordena registrar os decessos como pneumonia atípica, infarto ou simplesmente paro respiratório.

Hospitais lotados, médicos punidos, doentes desaparecido, ninguém acredita nos números do governo bolivariano
Hospitais lotados, médicos punidos, doentes desaparecido,
ninguém acredita nos números do governo bolivariano
Álvaro Ramírez, ex-diretor de Epidemiologia do ministério de Saúde, revela que o regime chavista de Ortega “disfarça de pneumonia as mortes por Covid-19''.

O ministério de Saúde deixou de publicar seus relatórios epidemiológicos semanais e o governo não atende à imprensa.

Até simpatizantes de Ortega foram demitidos por manifestarem solidariedade com seus colegas banidos, como foi o caso da ginecologista Maria Isabel Selva.

“Atingimos níveis de repressão e vingança até contra o pensamento”, escreveu o pediatra oncologista Fulgêncio Báez, que apoiou os sandinistas nos anos 80.

O Dr. Adán Alonso atendia voluntariamente aos pacientes de Covid-19 recusados nos hospitais de León e Chinandega. Pelo seu sacrifício altruísta era chamado de “o doutor do povo”.

Ele morreu de coronavírus e a polícia bloqueou seus funerais com tropa anti-distúrbios, perseguiu os carros que participaram da procissão fúnebre e confiscou as bandeiras nacionais que as filhas do médico morto levavam em sinal de protesto.



segunda-feira, 6 de julho de 2020

Venezuela: Rússia e Irã provocam EUA por petróleo

Lavrov apoia Madura contra os EUA
Lavrov apoia Madura contra os EUA
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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O Departamento do Tesouro americano sancionou a empresa Rosneft Trading S.A., filial da petroleira estatal russa Rosneft, por trabalhar a favor da ditadura de Maduro na Venezuela.

“Os EUA estão decididos a impedir o saque da riqueza petrolífera da Venezuela pelo regime corrupto de Maduro”, disse o secretário do Tesouro dos EUA, Steven T. Mnuchin — noticiou a BBC.

Com efeito, o governo dos EUA acabava de renovar seu apoio ao presidente constitucional Juan Guaidó com uma ovação no Congresso, além de uma reunião com o presidente Trump na Casa Branca.

Por sua vez, Maduro recebia em Caracas a visita de Serguei Lavrov, o ministro de Exteriores russo. Foram dois golpes de cena que, segundo o The New York Times, “não foram coincidência”.

Lavrov chegou a Caracas logo depois da visita de Guaidó a Washington e do giro do secretário de Estado Mike Pompeo por antigas repúblicas soviéticas que Moscou considera sua área de influência.

O porta-voz de Lavrov em Caracas garantiu que a visita visava “contrabalançar as sanções” dos EUA.

Petroleiro iraniano desembarca combustíveis na Venezuela
Petroleiro iraniano desembarca combustíveis na Venezuela
A Rosneft é uma das “empresas estratégicas” do Estado russo e seu diretor, Igor Sechin, é membro da Nomenklatura, gozando da máxima confiança de Putin.

A Rosneft foi a única companhia energética a não ser expropriada pelo governo chavista ou que abandonou o país enquanto a produção petroleira desabava.

Para o regime de Maduro, a Rosneft é tão importante como o fornecimento de armamento e sistemas de defesa, sentimento partilhado pelo Kremlin.

Hoje a Rosneft controla várias jazidas vitais do país, onde opera em sociedade com a estatal venezuelana PDVSA.

Os EUA tentam bloquear as exportações de Caracas, mas a Rosneft continua comprando o óleo venezuelano e fornecendo um salva-vidas à ditadura.

A Rosneft alega que recebe petróleo venezuelano como pagamento de dívidas.

É mero pretexto, pois a Rosneft consegue assim administrar entre 60%o e 70% das exportações venezuelanas.

O povo padece fome, mas o governo chavista está pagando sua imensa dívida ao regime do Kremlin, o qual mantém o povo russo subalimentado.

O economista Ramiro Molina, ex-diretor de algumas das mais importantes empresas venezuelanas do setor, acredita que a dívida será totalmente paga este ano.

Qual será então o novo pretexto? Se os venezuelanos estão no fundo da miséria, os russos não passam muito melhor.

Então, para onde vai toda essa riqueza?

“Eles carregam o óleo na Venezuela e o transportam até a Índia e Singapura, onde o transferem no mar para petroleiros que seguem para a China”, explica o economista.

Marinha de guerra venezuelana da espalhafatosa cobertura a navios tanque iranianos.
Marinha de guerra venezuelana da espalhafatosa cobertura a navios tanque iranianos.
A China evita se comprometer com a Venezuela e a Rosneft colhe os benefícios pela distribuição em condições muito vantajosas: 15 ou 20% a mais, pelo risco das sanções americanas.

Muitos petroleiros desativam seus sistemas de localização para que seu operar ilícito não possa ser acompanhado.

Também o governo venezuelano recebe euros em dinheiro vivo, que agora começaram a circular em Caracas.

Maduro teria recebido assim entre seis e sete bilhões de dólares por exportações petrolíferas, apesar das medidas de Washington.

A Venezuela, outrora um dos maiores produtores e exportadores de petróleo, possuindo ainda as maiores reservas conhecidas, vive numa situação dramática em matéria de combustíveis.

A empresa americana Baker Hughes informou no dia 8 de junho de 2020 que o país só tem uma perfuradora extraindo petróleo. É menos do mínimo histórico da petrolífera estatal (PDVSA), informou “El Universal” de Caracas.

A administração não fornece mais informações. O mínimo histórico foi em 2003, quando greves deixaram ativas apenas 17 perfuradoras, que em 1999 eram 200.

Francisco Monaldi, diretor do Centro Internacional de Energía y Ambiente del Instituto de Estudios Superiores de Administración (IESA), escreveu nas redes sociais que “a produção de petróleo da Venezuela atingiu os níveis dos anos 30, portanto de há quase um século”.

“A produção continuará caindo”, advertiu. Os “milagres” infernais do socialismo não param — completa.

Pelos dados da OPEP, só no mês de maio [2020] a Venezuela passou da 111ª posição para 115ª no ranking do Índice de Transição Energética 2020 do Foro Econômico Mundial.

A ditadura populista, com o aval russo, obteve que o Irã lhe enviasse cinco petroleiros com combustíveis para sobreviver.

Clavel, último petroleiro que chegou a Venezuela
Clavel: último petroleiro que chegou a Venezuela
O último deles ingressou no dia 1º de junho de 2020, escoltado por naves de guerra venezuelanas, noticiou “El Universal”.

O petroleiro “Clavel”, o quinto a chegar carregado de combustível, completou um total de 1,5 bilhões de barris de gasolina e substâncias para regular a octanagem do carburante, levados primeiro pelos cargueiros “Fortune”, “Forest”, “Petunia” e “Faxon”.

Nicolás Maduro multiplica os métodos para apertar o racionamento, tendo limitado o consumo a 120 litros mensais para veículos particulares e 60 litros para motocicletas.

Mas com a condição de que o cidadão esteja cadastrado num órgão especial do governo, denominado “plataforma Pátria”.

Quem precisar de mais deverá recorrer a postos que vendem o litro por 0,50 dólares, um preço inaccessível para a maioria dos venezuelanos.

O transporte público e de carga terá um subsídio de 100% nos próximos 90 dias, depois tudo dependerá de “uma mesa de diálogo”.

O Irã, por sua vez, como desafio aos EUA, confirmou que enviará mais carregamentos, pois tanto ele quanto a Venezuela estão sancionados pelo gigante americano.

O desabastecimento de combustíveis e o colapso da produção são atribuídos pelos especialistas à corrupção e a decisões desastradas da petrolífera estatal.

O governo abriu portas extrajurídicas a “importadores privados” para vender gasolina a preços dolarizados, sem explicar quem são nem se houve as licitações obrigatórias por lei.

O auxílio foi tão decisivo que o ditador Maduro viajará ao Irã – outrora concorrente no mercado mundial – para agradecer pessoalmente aos petroleiros de gasolina, “tão logo seja possível, pelas condições sanitárias do Irã e da Venezuela”, declarou na única TV – a oficial – que resta, acrescentou “El Universal”.

A referência às condições sanitárias parece ser uma situação desesperadora que atinge os dois países.

Premente ajuda humanitária iraniana a Venezuela
Premente ajuda humanitária iraniana a Venezuela
O Irã beira os 200.000 contágios e 10.000 mortes, enquanto a Venezuela apresenta números falseados, estando seu sistema médico e o fornecimento de serviços públicos — como água potável, coleta de lixo e esgoto — numa decadência atroz, talvez só superada por Cuba.

Por isso foi comemorado o lote de insumos médicos chegados do Irã para combater o Covid-19, segundo “El Universal”.

Diversos kits e equipamentos médicos foram saudados no aeroporto internacional de Caracas pelo presidente da Comissão de Alto Nível Irã-Venezuela e pelo embaixador iraniano Hojjatollah Soltani.

O embaixador exultou com a chegada dos navios com combustíveis e dos materiais contra o coronavírus, pois “demonstra que enquanto nossos inimigos tentam nos sancionar (...) o Irã, a Venezuela e muitos povos revolucionários do mundo nos fortalecem com solidariedade”.

Na carência, na ditadura e na doença, é claro.


segunda-feira, 22 de junho de 2020

“Infectadura”: denúncia de 300 cientistas argentinos

Malgrado quarentena, panelazos soaram por toda Argentina contra a 'infectadura'.
Malgrado quarentena, panelazos soaram por toda Argentina contra a 'infectadura'.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Trezentos cientistas, intelectuais e jornalistas denunciaram a manipulação governamental argentina da quarentena obrigatória para criar uma “Infectadura”, ou ditadura socialista dissimulada de luta contra a epidemia, noticiou a imprensa portenha.

Os cientistas líderes procedem do CONICET (Consejo Nacional de Investigaciones Científicas y Técnicas) – o maior instituto científico oficial do país platino. https://www.conicet.gov.ar/

O principal indiciado é o presidente Alberto Fernández, de tendências chavistas mal dissimuladas. A extensão da quarentena com base em critérios políticos e o modo como está sendo aplicada fornecem a base da acusação.

Para o texto completo e a lista dos assinantes

A carta aberta intitula-se “A democracia está em perigo” e diz, entre outras coisas: “Nenhum país estava preparado para a pandemia, mas a primeira reação do Estado argentino foi negar a existência do problema, apesar das advertências de um setor independente da comunidade científica e política”.

Vicentin quarta maior exportadora do agronegócio expropriada pela 'infectadura'.
Vicentin quarta maior exportadora do agronegócio expropriada pela 'infectadura'.
Aliás — comentamos —, reação semelhante à do ditador chinês Xi Jinping diante do início da pandemia em Wuhan.

A denúncia ainda afirma que “o presidente Fernández anunciou ter iniciado ‘a hora do Estado’. A frase (...) descreve um fenomenal avanço na concentração do poder para eludir qualquer tipo de controle institucional”.

“Em nome da saúde pública, uma versão aggiornata da ‘segurança nacional’, o governo achou na ‘infectadura’ um relato legitimado por especialistas (...) ignorantes das consequências sociais de suas decisões” — acrescenta o documento.

“Nestes dois meses, houve dezenas de milhares de presos e milhões de punidos em nome de sua própria saúde. (...)

“Estados e cidades que se fecharam como condados medievais. Aulas suspensas, doentes que não podem continuar com seus tratamentos, famílias separadas, mortos sem funerais e, agora, a militarização dos bairros populares”.

“O desdém pelo mundo produtivo não tem precedente com a consequente perda de empregos, o fechamento do pequeno comércio, de empresas e o aumento da pobreza.

“Os créditos (...) e a assistência das pequenas e médias empresas foram táticas publicitárias”, advertem.

Presidente Fernández nega, mas ninguém acredita ele vai no rumo ao precipício de Maduro.
Presidente Fernández nega, mas ninguém acredita ele vai no rumo ao precipício de Maduro.
O documento conclui que “a democracia está em perigo. Possivelmente como nunca, desde 1983 [golpe militar].

“O equilíbrio dos poderes foi desmantelado. O Congresso funciona sem continuidade e a Justiça (...) autoexcluiu-se da conjuntura do país”.

Como cientistas, acadêmicos, profissionais e agentes culturais, os signatários manifestam preocupação e apelam para grupos e organizações da sociedade civil, partidos políticos, sindicatos, formadores de opinião e meios de comunicação independentes a fim de redobrar a atitude crítica e vigilante em relação ao poder governamental.

No texto, eles exigem um plano para sair dessa situação anormal. E concluem que a sociedade argentina se mostrou responsável na hora de enfrentar a ameaça da pandemia, cumpriu com as normas, os conselhos sanitários e foi respeitosa da lei e de seus representantes.

É hora de o presidente fazer o mesmo — conclui.


segunda-feira, 15 de junho de 2020

Cuba, “a Revolução está perdida”

Miséria e desinteresse pela Revolução em Havana.
Miséria e desinteresse pela Revolução em Havana.
Luis Dufaur
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O povo cubano não acredita mais no tal futuro melhor, prometido desde a implantação da Revolução comunista na ilha, conclui longa reportagem do “The New York Times Weekly International”.

Exemplo paradigmático é o de Caridad Limonta, militante de alto escalão no Partido Comunista, além de ter sido vice-ministra da indústria ligeira.

Ela devotou uma fé absoluta à Revolução, e acreditou que F. Castro acabaria com as desigualdades e criaria uma nova e próspera Cuba.

Quando jovem foi enviada a uma universidade soviética num transatlântico lotado de alunos cubanos, todos padronizados, vestidos com as mesmas roupas e utilizando as mesmas malas.

Voltando à Havana em 1981, aplicou o que tinha apreendido na Rússia, e teve de fechar os olhos para os defeitos do regime.

Assim, chegou a vice-ministra, ademais de ter ocupado postos influentes no Partido. Mas ficou espantada ao ver dezenas de milhares de cubanos –los balseros – arriscando suas vidas para fugir da ilha, outrora Pérola das Antilhas.

Cada dia, ela percebia a Revolução envelhecer. As contradições entre a realidade e as promessas se tornaram incontornáveis.

Os hospitais horrivelmente deficientes, paralíticos aguardavam meses e até anos por uma cadeira de rodas.

Caridad Limonta deixou o Partido Comunista e virou 'microcapitalista' costurando berços com restos de serviços de cama dos hotéis para estrangeiros.
Caridad Limonta deixou o Partido Comunista e virou 'microcapitalista'
costurando berços com restos de serviços de cama dos hotéis para estrangeiros.
Os equipamentos hospitalares se desfaziam de podres, não havia remédios, enquanto médicos e enfermeiras viviam de subornos.

Quando ela completou 48 anos de idade teve de ser levada com urgência ao hospital que lhe designou a planificação socialista, na sua cidade Guanabacoa.

Vendo-a em estado grave, os médicos a transferiram para o principal centro de cardiologia de Cuba.

Recebeu o marca-passos de que necessitava, mas só porque tinha um alto cargo na ditadura. A cirurgia à qual foi submetida lhe causou uma infecção quase mortal que a deixou marcada para a vida toda.

Com isso, renunciou ao emprego, à militância no Partido, devolveu o carro que lhe o Estado lhe havia emprestado. Ainda mais. Renunciou à forma de macumba cubana que ela havia praticado como religião, sem obstáculos por parte do regime que se afirma ateu.

Ela via que o apoio à utopia revolucionária também se definhava em muitos outros colegas de outrora. Se ela se queixasse, seria imediatamente perseguida.

Sua opção era fugir, ainda que de modo muito precário, de balsa para a Flórida ou engolir tudo calada, e só pensar em sobreviver.

Recebia arroz e feijão subsidiados, além de uma pensão equivalente a 60 reais mensais, que lhe garantiam uma vida na miséria. Apelou para uma velha máquina de costurar, legado de sua mãe.

Colhia os lençóis descartados pelos hotéis para estrangeiros e montava berços de recém nascidos que vendia secretamente por poucos dólares.

Cautelosamente chegou a ser uma das primeiras ‘capitalistas legais’, tendo sido apresentada com outros tantos do ramo a Barack Obama, quando visitou Havana em 2016, para demonstrar que Cuba respondia à ‘abertura’ propalada.

Mural estragado em Havana encarna carunchamento da Revolução comunista.
Mural estragado em Havana encarna carunchamento da Revolução comunista.
Mas a bonança durou pouco. Ela aguardava que em 2018 viria um presidente que não se chamasse Castro, e fizesse a prometida nova Constituição.

Grande desilusão. Pelo fim de 2018, o filho se somou a uma onda de jovens que fugiu de Cuba. Caridad Limonta precisava da atenção médica gratuita e não podia sair de Cuba.

Seguia levando presentes para o médico como todos os cubanos que querem ser tratados.

Nela, o principal mudou: ela ficou farta da mentira socialista e está certa de que o futuro não será melhor na ilha.

Psicologicamente achatados, com o coração calejado por décadas de privações, os cubanos que ficaram na ilha-prisão acabaram por se adaptar às adversidades, resignando-se à infelicidade. Assim perderam a vontade de uma mudança para melhor.

Nos EUA, os candidatos democratas prometem retomar a frustrada política pró-castrista inaugurada por Obama.

Do outro lado, as posturas conservadoras que ficam na agressividade verbal, mas não acabam com a ditadura, não ajudam aos cubanos como Limonta.

O regime se vinga sobre eles alegando revidar ao que vem dos EUA.

Os homens importantes da nomenklatura comunista, chamem-se Castro ou outro nome, até o novo presidente Miguel Díaz-Canel, aproveitam para se refestelar com o pouco que a ilha tem ou consegue, como bons feitores da “igualdade socialista e revolucionária”.

A reportagem do “The New York Times Weekly International” conclui que “Limonta agora aceita algo que nunca imaginou: para ela, “a Revolução está perdida”.



segunda-feira, 25 de maio de 2020

América do Sul pode derrotar a fome no mundo

Colheita do trigo no sul da província de Buenos Aires
Colheita do trigo no sul da província de Buenos Aires



No ano 2020, a Argentina poderá estar alimentando 600 milhões de pessoas no mundo, segundo o Ministério de Agricultura do país vizinho, noticiou em seu momento “Clarín” de Buenos Aires.

Uma espada de Damocles paira sobre esse promissor horizonte: a animosidade contra o agronegócio professada pelo novo governo de Alberto Fernández. Esse fingiu de "moderado" em briga com sua vicepresidente, a extremista populista Cristina Kirchner.

Também a crise do coronavírus serviu de pretexto para atrapalhar o escoamento da safra.

Porém esse patamar está ao alcance das mãos auxiliadas pelas novas tecnologias existentes. Atualmente, embora com uso limitado dessas tecnologias, a Argentina é o país que produz mais alimentos per capita no mundo.

Por sua vez, em 2019 a agropecuária brasileira já alimentava mais de 1,5 bilhão de pessoas. (Agroemdia).

Estudo da Bain & Company, em 2010, previa que o Mercosul produzirá a maior parte dos 3,5 bilhões de toneladas de grãos que o mundo deve consumir em 2050 (Globo Rural).

Inúmeras inovações nas comunicações estão à disposição do produtor, como imagens satelitais, sensores e modelos que predizem eventos climáticos ou permitem adiantar safras, sensores eletrônicos para os grãos e software para estocagem, etc.

Os problemas do agronegócio argentino são análogos aos do brasileiro. Entre eles a hostilidade e o descaso de anos de governo populista peronista “bolivariano”, que flagelou os produtores agropecuários.

A Argentina perde 16 milhões de toneladas de alimento por ano, ou 12,5% da produção alimentar nacional, por abandono da infraestrutura.

Na Sociedade Rural de Palermo, Buenos Aires
Na Sociedade Rural de Palermo, Buenos Aires
Segundo o Conselho Latino-americano de Proteína Animal (Colapa), a Argentina produz anualmente mais de 17 milhões de toneladas de proteína animal, o maior produtor do continente e um dos máximos do mundo, apesar de a pecuária ter sido hostilizada ideologicamente por governos populistas.

Argentina, Brasil, Colômbia, Costa Rica, Equador e México produzem 82% do total continental de proteína animal. A liderança desses países será decisiva nos anos vindouros, quando por volta de 2050 a população mundial poderá atingir 9 bilhões de pessoas, demandando mais 200 milhões de toneladas extras.

Porém, nossos países têm potencial para “romper o ciclo da pobreza e da insegurança alimentar” mundial, segundo a FAO, acrescentou o “Clarín”.

A verdadeira esperança dos famintos do mundo reside no colossal potencial agrícola da América do Sul.

Porém, não faltam os autoproclamados “defensores e arautos dos pobres”, que dos ministérios, púlpitos, cátedras universitárias e redações pregam contra os produtores rurais, a propriedade privada e a livre iniciativa, que, se deixados em liberdade, com certeza afastariam o espectro da fome dos mais necessitados da terra.

E infelizmente, o pontificado do Papa Francisco veio a se somar a essa ofensiva demolidora da propriedade privada, da agropecuária, e do bem-estar honesto do mundo.


segunda-feira, 11 de maio de 2020

Na epidemia, orgias na cúpula comunista venezuelana

Maduro justificou a orgia porque os jovens 'não sabiam que estavam doentes'.
Maduro justificou a orgia porque os jovens 'não sabiam que estavam doentes'.
Luis Dufaur
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Os ditadores comunistas reservam para si uma filosofia de vida toda voltada para os prazeres paroxísticos que dizem criticar nos “burgueses”, “capitalistas”, sem se incomodar com a miséria do povo.

Para essa categoria ditatorial, na União Soviética foi cunhado o nome de nomenklatura que se usa hoje na China, Cuba e a Rússia de Putin.

Um exemplo disso foi dado por uma farra dos filhos da elite socialista da Venezuela, durante uma semana de sexo, drogas e bailes numa luxuosa ilha do arquipélago de Los Roques, no Caribe, reportou “La Nación”.

Para a ocasião trouxeram prostitutas importadas de Europa e se fotografaram com cantantes famosos.

A farra continuou em território continental venezuelano, e acabou com quase todo o mundo infectado.

“Houve uma festa numa ilha e praticamente todos deram positivo a Covid-19”, declarou Maduro pela TV estatal em 20 de março.

Para o povo hospitais venezuelanos sem medicamentos, sem luz e sem água na pandemia
Para o povo hospitais venezuelanos sem medicamentos,
sem luz e sem água na pandemia
Mas defendeu a orgia dizendo: “¿Por que van a criticar uma festa? Não sabiam que estavam doentes!”

Nessas festas consome-se drogas psicodélicas conhecidas como “cocaína rosada”, pela cor do narcótico e naqueles dias os EUA acusaram Maduro de narcotraficante.

Entre os participantes estava Jesús Amoroso, filho do principal funcionário anticorrupção de Maduro.

Também os filhos do próprio Nicolás Maduro sancionado recentemente pelo Departamento do Tesouro de Estados Unidos por socavar a democracia venezuelana.


segunda-feira, 9 de março de 2020

Cristandade: a verdadeira resposta aos desafios da Amazônia

Al Gore finge não querer pobreza na Amaônia, mas faz tudo para piorá-la
Al Gore finge não querer pobreza na Amaônia, mas faz tudo para piorá-la
Luis Dufaur
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Al Gore, guru do alarmismo ambiental, tentou responder o comentário de Paulo Guedes, durante o Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, quando o Ministro da Economia afirmou ser a pobreza o maior inimigo do ambiente, segundo publicou a "Folha de S.Paulo".

Qualquer que seja a preferência político partidária, não é possível negar a procedência do pronunciamento do ministro brasileiro.

As descrições feitas do meio ambiente da Gália, hoje França, pelos primeiros civilizados que penetraram em seu território são apavorantes.

Para ficar curado de um possível espanto, basta conferir o relato “De Bello Gallico”, descrição da conquista do território feita pelo famosíssimo general romano Júlio César.

Pântanos, bosques, bárbaros com a cabeleira que lhes cobria os rostos e, supremo sinal de terra agricolamente desprezível para os romanos, não crescia nem o trigo nem a uva, escreve Júlio César.

A obra da civilização cristã, porém, em cuja testa se colocaram decididamente os mosteiros, sobretudo os beneditinos e seu ramo de Cluny, transformou aquela terra maldita num oásis de beleza, produção e requinte que é a França atual.

Mas Al Gore não quer saber de nada disso.

Ele dá as costas às boas lições do passado, engajando-se furiosamente contra uma causa simpática.

Boa Vista, exemplo do esforçado avanço dos verdadeiros brasileiros longe dos embustes ecológicos.
Boa Vista, exemplo do esforçado avanço dos verdadeiros brasileiros
longe dos embustes ecológicos.
“Hoje é amplamente entendido que o solo na Amazônia é pobre. Dizer às pessoas no Brasil que elas vão chegar à Amazônia, cortar tudo e começar a plantar, e que terão colheitas por muitos anos, isso é dar falsa esperança a elas”, afirmou.

Ele tem uma parcela de verdade, mas ignora as grandes lições do passado e conclui uma suprema estupidez, pois é certo que há terras de grandes florestas que não são de grande qualidade. Cfr. Os mosteiros levaram a agricultura a patamar nunca visto

Basta ter estado nelas, aliás onde os ecologistas de salão frequentam pouco.

É verdade, contudo, que a ação benéfica dos homens pode transformar um território assustador num vergel admirável como se deu com a França.

O Fórum de Davos se concentrou em 2020 na preservação ambiental, com ênfase na Amazônia.

A reunião transcorreu em pleno inverno nos Alpes suíços, mais uma região que pode ser incluída na maravilhosa ação transformadora do homem e da civilização cristã.

“Os brasileiros, desde sempre, falam que não querem que outras pessoas se metam na questão amazônica. E isso deve ser respeitado”, teve de reconhecer o ex-vice-presidente americano para se proteger das críticas.

Mas logo depois retomou a sua falação fazendo o contrário do que acabava de dizer para se imiscuir nas questões brasileiras e criticando o ministro Paulo Guedes que havia apontado a pobreza como inimiga do ambiente afirmando a maior das obviedades que possa haver, ou seja, que o País primeiro precisava resolver outros problemas.

O bem do homem passa por cima do bem da mata, e se o combate à pobreza postula diminuir a mata, diminua-se a mata! Desmate-se!

No desmatamento hoje podem entrar interesses diferentes, como de fato entram com multinacionais estrangeiras de países ricos.

Mas se deve analisar os casos sem demagogia visando o bem comum.

Agronegócio leva prosperidade à Amazônia.
Agronegócio leva prosperidade à Amazônia.
Aliás, o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira sempre dizia que se fosse verdade que a floresta amazônica salva o clima da Terra, os países beneficiados deveriam recompensar financeiramente, e, de modo proporcional, o Brasil por esse bem prestado.

Mas Al Gore não procura uma solução equilibrada para os problemas que apresenta, e trabalha por uma ideologia de fundo comuno-tribalista que vai miserabilizar essa região que promete tanto.

No final de sua arenga, Gore também alfinetou o presidente americano, Donald Trump, que pedira que as pessoas rejeitassem o alarmismo ambiental.

A militância política de esquerda é sempre dominante nesse bonzo dos exageros ecologistas.

“Sabemos o que precisa ser feito, para frear o aquecimento global. O que falta é vontade política”, disse Gore, confessando a verdadeira preocupação que o anima: a política, de esquerda ou extrema esquerda de preferência...


segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

Encolhimento da população do Brasil vai atrás do Japão corroido física e psíquicamente

Casas abandonadas aumentam em número.
Casas abandonadas aumentam em número.
Luis Dufaur
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O Brasil, infelizmente, vem percorrendo a mesma estrada rumo ao abismo populacional que empreendeu o Japão, embora ainda esteja mais distante do desastre nipônico.

O número de nascimentos registrados no estado de São Paulo vem caindo há anos, informou “OESP”.

Em 2018, ocorreram 605.630 nascimentos no Estado, quase 166 mil menos do que em 1982, de acordo com a mais recente estatística da Fundação Seade, malgrado o enorme aumento da população paulistana.

A queda em pouco menos de quatro décadas foi de 21,5%.

O número médio de filhos por mulher passou de 2,08 em 2000 para 1,70 em 2018.

Shinobu Ogura auxilia no fabrico dos 'habitantes' da cidade que morre
Shinobu Ogura auxilia no fabrico dos 'habitantes' da cidade que morre
As mudanças têm também grandes consequências sociais, econômicas e fiscais.

Com o aumento auspicioso da longevidade – de 54,2 para 76,4 anos em relação a 1950 – começam a tomar corpo os desequilíbrios ora registrados no Japão, de insuficiência de trabalhadores ativos para sustentar os aposentados.

No Japão, em 2005 a população japonesa diminuiu pela primeira vez desde 1899, superando as piores expectativas.

Naquele ano, a redução foi de 10 mil habitantes, segundo cômputo governamental, com uma taxa de natalidade 1,29 filho por mulher, quase a metade do mínimo para repor as mortes, noticiou a “Folha de S. Paulo”.

As projeções anteriores previam que o Japão tivesse 27 milhões a menos em 2050, em parte pelo envelhecimento da população, e o governo previa que 25% dos japoneses teriam 65 anos ou mais em 2014.

Mas os índices pioraram para além do previsto e o governo vem lutando para manter a população acima de 100 milhões recorrendo à imigração, informou a Deutsche Welle, rádio oficial alemã.

O último censo apontou uma perda de quase 1(um) milhão de habitantes em apenas cinco anos.

A capital, Tóquio cresceu 2,7%, para 13,5 milhões ou 10,6% da população do país, sofrendo os males de uma cidade superpovoada.

A estimativa do Instituto Nacional de Pesquisa Populacional é de que o percentual de aposentados com 65 anos ou mais constitua 40% da população japonesa até 2060, ameaçando a força de trabalho necessária para garantir à expansão econômica do país, outrora famosa.

Sem um aumento significativo de nascimentos, a população do país cairá para 108 milhões até 2050 e para 87 milhões até 2060, acrescentaram as fontes citadas pela Deutsche Welle.

Em 2019, o Ministério do Bem-Estar estimou que o Japão tenha ficado com 512 mil pessoas a menos.

A natalidade caiu ao nível mais baixo desde 1874, quando, paradoxalmente a população era cerca de 70% menor que a atual, noticiou “O Estado de S.Paulo”.

As mortes, majoritariamente por idade, superaram as baixas do fim da Segunda Guerra Mundial, quando o país fora derrotado pelos EUA com bombardeios atômicos.

Boneca 'camponesa' dá 'vida' à paisagem rural de Nagoro.
Boneca 'camponesa' dá 'vida' à paisagem rural de Nagoro.
Portanto, menos jovens passam a trabalhar, e os aposentados deixam vagas não preenchidas, pondo em xeque a vitalidade econômica e a estabilidade social daquele país.

O Japão não é exceção, o recorde da perda de natalidade é da Coreia do Sul.

E muitos outros países, incluindo vários da União Europeia, China e Estados Unidos já pensam em problemas de despovoamento e migrações de grandes massas de estrangeiros no futuro.

Vilas japonesas inteiras estão desaparecendo.

Os incentivos aos nascimentos se mostram insuficientes e o casamento está em declínio.

O Japão tenta multiplicar os robôs no trabalho e aumentar os imigrantes.

Exemplo patético foi narrado pelo “The New York Times” no vilarejo de Nagoro.

Lá, as últimas crianças nasceram há 18 anos e a escola primária foi fechada em 2012, por falta de alunos. Não há mais lojas.

No desespero do vazio, Tsukimi Ayano fez 350 bonecas – suas “amigas” – e as instalou em locais públicos para fingir animação.

Bonecos de alunos brincando na escola para preencher o vazio.
Bonecos de alunos brincando na escola para preencher o vazio.
Bonecas do tamanho de crianças disputam uma corrida, brincam no balanço e arremessam bolas. Uma “senhora” cuida de um túmulo na beira da estrada. “Operários da construção” fumam cigarros. Na escola, há “alunos” sentados em carteiras, “camponeses” cuidam do campo, e muitos outros à beira da estrada ficam olhando...

Quando Tsukimi era criança, moravam 300 pessoas em Nagoro. Mesmo com subsídios agora o local não atrai novos moradores.

O mais incrível é que viajantes param para pedir informações às bonecas. “Se fossem humanos de verdade”, disse Kayoko Motokawa, 67, “esse seria um lugar verdadeiramente feliz”.



segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Amor pela música barroca no Chaco e Amazônia exorciza tribalismo comunista

Rumo ao ensaio de música barroca na Amazônia.
Rumo ao ensaio de música barroca na Amazônia.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs








Nas ruas e igrejas de San Ignacio, na região boliviana de Chiquitania na transição entre o Chaco e a Amazônia, a 200 kms do Brasil, soa um rumoroso desmentido à demagogia comuno-tribalista que eclodiu no Sínodo Pan-amazônico de 2018.

A população toda ela é descendente dos “povos originários” guaranis.

O comuno-tribalismo de missionários adeptos à “teologia da libertação” e ONGs herdeiras do utopismo comunista quereriam jogá-los de volta ao primitivismo precolombino.

Mas o que a população gosta é de Bach, Vivaldi e da música barroca. E a executa com tanta habilidade, bom gosto e paixão que deixou pasmo ao jornalista do “Le Figaro Magazine” de Paris que foi até essa região chaco-amazônica para fazer ampla reportagem. (dezembro de 2019, págs. 67 e ss.)

Félix, de 17 anos, apaixonado pela música barroca, mostrou à jornalista Manon Quérouil-Bruneel, o Stradivarius que ganhou como melhor aluno de orquestra municipal.

E com os olhos brilhando de emoção começou a executar uma fuga de Beethoven que os prédios coloniais da antiga missão jesuítica ecoavam naquela selvática região.

“Na Europa, os jovens acham isto cacete”, explicou o descendente de indígena à europeia. “É engraçado constatar que hoje são descendentes de índios que perpetuam esta herança longínqua”.

Nas restauradas capelas missionárias, descendentes dos 'povos originários', no caso guaranis, ensinam admiração pela música barroca.
Nas restauradas capelas missionárias, descendentes dos 'povos originários',
no caso guaranis, ensinam admiração pela música barroca.
Tudo começou em 1691 quando os missionários jesuítas fundaram a primeira “reducción” segundo o famoso – e injustamente denegrido – regime disciplinar dos missionários de Santo Inácio que converteu e civilizou imensas áreas de América.

Vários chefes tribais guaranis decidiram se tornar suseranos obedientes aos jesuítas que lhes ensinavam a doutrina do Evangelho.

E muito especialmente a música barroca. Era algo que eles não conheciam, mas logo admiraram, fizeram sua e passaram a executar com uma maestria surpreendente, nos instrumentos e no canto.

Essa passou a ser a “língua comum” de tribos e evangelizadores que se aprendia junto com a leitura, a escritura e o catecismo.

E não foi só Vivaldi e Rameau, entre outros, que passaram a ser ouvidos nas florestas. Eles próprios, guaranis, começaram a compor partituras de um talento inegável, com o selo europeu, mas com o charme do novo que nasce para a civilização.

Intrigas anticristãs nas cortes da Europa provocaram a expulsão dos jesuítas dos vice-reinados espanhóis em 1767 e o fechamento da Ordem nos países católicos (foi restaurada em 1814).

E aquela obra providencial nascente caiu em ruínas.

Até que o missionário franciscano alemão Walter Neuwirth, hoje muito idoso e doente, chegou à aldeia de Urubichá em plena Chiquitania.

Ele conta emocionado: “descobri uma dezena de músicos autodidatas que abateram uma árvore da aldeia para fabricar violinos com suas próprias mãos.

O Festival Internacional de Barroco Boliviano atrai a participação de artistas europeus.
O Festival Internacional de Barroco Boliviano
atrai a participação de artistas europeus.
“Eles tocavam maravilhosamente bem. Percebi logo que este povo tinha a música no sangue”.

Veio depois a restauração das igrejas barrocas das antigas missões, aliás admiráveis pela sua beleza na rusticidade.

Simultaneamente foi feito o incrível achado: milhares de partituras dos tempos jesuíticos, de composições europeias ou de ignotos autores locais, zelosamente custodiadas durante séculos pelas autoridades indígenas locais.

A chegada de Ruben Dario Suárez Arana, o primeiro mestre formado em Córdoba, Argentina, foi anunciada pelos sinos da igreja.

O missionário explicou aos fiéis convocados que tinha chegado um professor de música.

E os habitantes “embora – conta frei Walter – mal tinham para comer, decidiram todos participar financeiramente na criação de uma pequena orquestra”.

Uma corrente de transmissão de saber musical passou logo a se espraiar para outras cidades.

O que ensinava o jovem professor vindo de fora, era replicado em dezenas de orquestras municipais que se organizaram logo.

O conservatório começou com todas as carências, mas hoje todo ano acolhe mais vinte novos candidatos.

Aula no conservatório. Os recursos faltam, bispos não ajudam, autoridades chavistas tampouco, mas entusiasmo pela música barroca atrai novos candidatos.
Aula no conservatório. Os recursos faltam, bispos não ajudam, autoridades chavistas tampouco,
mas entusiasmo pela música barroca atrai novos candidatos.
Os primeiros jesuítas não teriam imaginado ouvir As Quatro Estações de Vivaldi ressonando na Chiquitania, mas a orquestra municipal de San Ignacio já fez giras pela Europa e pela América Latina. Seus vídeos estão em Youtube.

Organiza também cada dois anos um Festival Internacional de Música Barroca na cidade que atrai especialistas europeus.

Mauro Sorubi, 42 anos, preferiu se dedicar à confecção de violinos e violoncelos, os instrumentos preferidos dos jovens.

A seu ateliê a toda hora chegam rapazes e moças de bicicleta ou velhas motos para encomendar consertos em seus violinos, que querem ver os mais semelhantes possíveis ao mítico Stradivarius de Félix.

De quase toda choupana de San Ignacio saem notas: são os meninos ensaiando.

Os irmãos Jesus, 18 anos, e Luis, 14, ensaiam um concerto de Beethoven. A fim de contas eles já tem dois anos na orquestra municipal! “Nós temos a música nas veias. Mas não temos outra coisa”, diz seu pai.

A Fé e a Cultura Cristã progrediram de mãos dadas conduzidas pelos missionários tradicionais.
A Fé e a Cultura Cristã progrediram de mãos dadas
conduzidas pelos missionários tradicionais.
A população beira o nível de pobreza, e os jovens aprendizes devem trabalhar a terra, mas isso não é obstáculo para seus nobres anseios artísticos.

Dana Cristina, 12, vive com sua mãe e seus cinco irmãos na sede de um partido político habitualmente deserta quando não há eleição. “Não posso pagar um aluguel” diz a mãe, que é padeira.

Mas Dana Cristina exibe um talento extraordinário e lhe pressagiam um belo futuro.

Ela não tem violino e pede emprestado um durante a noite. Então ensaia a ponto de criar bolhas nos dedos.

A música barroca abre os horizontes mentais das crianças. As notas de Dana na escola subiram como uma flecha com a música.

Outras crianças no contato com as escalas e melodias aspiram ser arquitetos ou astrónomos, profissões que não existem na pobre cidade agrícola de 30.000 almas incluídas as redondezas.

O prefeito, porém, deplora a falta de colaboração da Conferência Episcopal influenciada pela pregação indigenista contrária à verdadeira cultura e que destrói o futuro dos índios.

E tampouco o faz o governo que escolheu a demolição chavista-populista de Evo Morales, aliás felizmente posto para fora pelos próprios bolivianos.

Uns e outros em pouco ou nada ajudam esse promissor progresso civilizatório de essência católica.

E não conseguem impedir o admirável crescimento cultural cristão e a propensão para a Cristandade daqueles que “Le Figaro Magazine” denomina “Os virtuosos da Amazônia”.