segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Naufrágio da Venezuela evoca a Rússia de Lenine

Venezuela PBI cai 48% e inflação atinge 1.000.000%. Fome causa fugas em massa.
Venezuela: PBI cai 48% e inflação atinge 1.000.000%.
Fome causa fugas em massa.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






Milhares de trabalhadores estão fugindo da principal empresa da Venezuela, a petroleira nacional PDVSA, outrora uma das mais ricas do mundo.

Eles abandonam empregos que já foram cobiçados, mas que não pagam mais nada por causa da pior inflação do mundo, segundo longa reportagem do jornal “The New York Times”.

Muitos fogem para a Patagônia, onde a exploração crescente de gás e de petróleo não convencional requer mão-de-obra especializada. Em Buenos Aires, um bairro recebeu o apelativo de “Palermo Caracas”, escreveu “Clarín”.

Mas os petroleiros sem especialização caem no desespero. Repete-se a patética situação das fábricas na Rússia logo após a revolução leninista: os funcionários roubam equipamentos para revendê-los fora e garantir a sobrevivência da família. É o caso especialmente de veículos, bombas e cabos de cobre.

Dezenas de gerentes foram presos, inclusive o ex-presidente da empresa. Maduro instalou na direção da PDVSA o general da Guardia Nacional, Manuel Quevedo, que não tem experiência no setor.

A poderosa empresa está parando por causa da sangria de pessoal e de equipamento. E ela é a fonte quase única (mais de 90%) dos recursos do país!

Derrame de petróleo dos tanques alaga refinaria de El Tigre.
Derrame de petróleo dos tanques alaga refinaria de El Tigre.
O presidente-ditador Nicolás Maduro foi reeleito mais uma vez em 2018, numa eleição amplamente condenada pelos governantes de todo o hemisfério.

Ele tenta resolver com decretos furiosos a fome generalizada, a devastadora carência de medicamentos e o êxodo de mais de um milhão de pessoas, número relativo apenas aos que fugiram para a Colômbia.

Isso quando a inflação projetada andava em 13.000% e o ordenado mensal de um trabalhador dava para comprar apenas um frango.

A perspectiva do FMI para 2018 é de uma inflação de 1.000.000%, noticiou “La Nación”.

Segundo “Clarín”, o presidente Maduro anunciou que eliminaria cinco zeros das notas, ele que em anos anteriores já havia eliminado muitos outros.

Um dos problemas é que, pelo fato de as notas não valerem mais nada, o povo já não faz mais uso delas notas, não se justificando carregá-las no bolso.

A produção da PDVSA afunda, os campos estão com a metade da capacidade ociosa e o sumiço de equipamentos paralisa setores inteiros.

Filas para comprar farinha de milho na cidade petrolífera de El Tigre.
Filas para comprar farinha de milho na cidade petrolífera de El Tigre.
Inúmeros processos legais entorpecem ainda mais a atividade produtiva e exportadora.

A Venezuela, que antes da revolução bolivariana distribuía gasolina praticamente de graça para toda a população, agora a importa para o consumo interno com dólares que não tem.

A PDVSA (ou o governo, pois um só existe em função do outro) deve 50 bilhões de dólares e não paga.

Maduro promete, com inversões de governos “amigos” como o russo e o chinês, aumentos de produção inatingíveis. Mas a China, que visa expandir sua hegemonia comercial, se nega a continuar lhe emprestando, tendo desistido de aguardar um pagamento futuro em petróleo.

A queda do PIB para este ano é estimada em 18%, o terceiro consecutivo de dois dígitos. O decrescimento – termo adorado pelos filósofos da revolução comuno-ecologista – acumulado nos últimos cinco anos atinge 48%.
“O pessoal está morrendo de fome”, disse Eldar Saetre, diretor executivo de Equinor, a gigante petroleira norueguesa associada à PDVSA.

Os trabalhadores contam que o seguro médico não funciona, os almoços não chegam, as instalações sofrem contínuos derramamentos de petróleo pela degradação de encanamentos, chaves e depósitos.

ônibus para transporte de funcionários do petróleo abandonados por falta de peças em Tomé.
Ônibus para transporte de funcionários abandonados por falta de peças em Tomé.
Numa delas, flagraram dois grandes tanques rodeados por um preocupante lago negro de petróleo que escapou pelas fissuras.

Fala-se de bandos criminosos que depredam, mas os operários dizem que para desmantelar os sistemas se requer um conhecimento que só operários ainda ativos e ex-empregados possuem.

“Os roubos se aceleraram. Roubam-te o carro, o cabeçote do poço. Tiram as peças, as fundem, revendem. O pessoal está muito desesperado. Podem vender o cobre para alimentar sua família”, explicou Ali Moshiri, executivo principal da Chevron para América Latina até o ano passado.

Os engenheiros fogem sem aviso prévio rumo aos EUA, Argentina, Peru, Equador, Brasil, Colômbia e Espanha e com frequência não são substituídos. E quando o são, é por amigos do governo que entendem pouco ou nada da profissão.

Ovidio Martínez, de 55 anos, se recorda do auge do petróleo. Agora chorou, enquanto falava de seu filho que abandonava o país. “Você vê que teus filhos vão embora e você não pode detê-los”, disse, tentando conter as lágrimas.



segunda-feira, 23 de julho de 2018

Papa Francisco salvando esquerdas marxistas sem oxigênio


José Antonio Ureta
Membro fundador da “Fundación Roma”,Chile;
membro da “Société Française pour la Défense
de la Tradition, Famille et Propriété”;
colaborador do Instituto Plinio Corrêa de Oliveira
e autor do livro: “A mudança de paradigma
do Papa Francisco: continuidade ou ruptura
na missão da Igreja?
Relatório de cinco anos do seu pontificado”.















continuação do post anterior: Cinco anos de pontificado: Promoção da agenda neomarxista e altermundialista dos “movimentos sociais”



Aliança com os “Movimentos sociais” de inspiração marxista



Pondo na prática os postulados da Teologia da Libertação, o Papa Francisco tem usado o prestígio de seu cargo a serviço dos chamados “movimentos sociais”, que não escondem sua clara orientação marxista. 

Esse apoio vai notadamente para o Encontro Mundial de Movimentos Populares, “uma plataforma construída por diversos movimentos populares em torno ao convite de Francisco a que os pobres e os povos organizados não se resignem e sejam protagonistas do (processo) de mudança”[1].

Na realidade, dita plataforma foi o resultado prático de um seminário que a Academia Pontifícia de Ciências chefiada pelo arcebispo Marcelo Sánchez Sorondo organizou em Roma no dia 5 de dezembro de 2013 sobre a “A emergência das pessoas socialmente excluídas”, a cujo respeito nós trataremos mais amplamente nos capítulos seguintes. 

Para esse seminário foram convidados líderes confessadamente marxistas do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra do Brasil-MST (João Pedro Stédile), do Movimento dos Trabalhadores Excluídos da Argentina (Juan Grabois) e da organização internacional Via Campesina, os quais tiveram todas as despesas de viagem pagas pelo Vaticano.

Convém lembrar que se trata de movimentos para os quais “a estrada das mudanças pela via institucional parece decisivamente bloqueada” e que não hesitam em recorrer “à prática das ocupações de massa” — ou seja, à invasão sistemática de propriedades — a fim de abrir “outro espaço” de confrontação e fazer com que “a curva da luta de classes [seja] mundial” e entre numa nova “fase de ascensão” que faça a terra tremer[2]

Para tais movimentos, só quando a economia for “socializada e planificada”[3] é que se poderá realizar a “sociedade sem explorados nem exploradores”, o que implica “uma intervenção fortíssima do Estado”[4]

Em 2003, o líder do MST chegou a declarar: “Queremos a socialização dos meios de produção. Vamos adaptar as experiências cubana e soviética ao Brasil[5].

Pregação marxista nos Encontros Mundiais de Movimentos Populares


Até agora houve três Encontros Mundiais de Movimentos Populares.

O primeiro deles foi realizado de 27 a 29 de outubro de 2014 no próprio Vaticano e teve como principal participante Evo Morales, presidente da Bolívia, ícone dos movimentos sociais e indigenistas, o qual declarou que daí deveria emergir “uma grande aliança dos excluídos” em luta contra o capitalismo “que tudo compra e tudo vende”.

O segundo aconteceu em Santa Cruz de la Sierra, Bolívia, entre o 7 e 9 de julho de 2015, por ocasião da visita apostólica do Papa Francisco a dito país.  Seu ponto culminante foi um longo discurso do pontífice.


O terceiro encontro se realizou novamente no Vaticano entre os dias 3 e 5 de novembro de 2016 e sua vedette incontestável foi o ex-presidente de Uruguai, José Mujica. 

Apresentou-o aos participantes o jornalista Ignacio Ramonet, diretor do mensário ultra-esquerdista Le Monde diplomatique, para quem “Pepe é também um exemplo de coerência de vida. 

É um homem que militou quando em seu país havia uma horrível ditadura militar, uma das piores do Cone Sul, e ele escolheu a via das armas, porque a via da política não era possível” [6].

Durante os Encontros é feita uma atualização da situação mundial como esta é percebida pelos “movimentos sociais”, naturalmente em clave marxista. 

Na sua síntese do dia inaugural do primeiro Encontro, o líder do MST brasileiro, João Pedro Stédile, declarou que os trabalhos foram “inspirados nos aportes do lutador italiano Antonio Gramsci” e concluíram que “há uma crescente concentração da propriedade da terra, de riqueza […] por uma minoria de capitalistas”, que “o império dos Estados Unidos, com seus aliados no G8 e da OMC, controlam a economia mundial”, que na maioria dos países o poder judiciário “atua como instrumento de defesa dos interesses do capital” e que, pelo contrário, “as lutas sociais ainda estão na fase de ‘protestos’ e não da construção de um projeto de sociedade que envolva os trabalhadores e tenha como base à solidariedade, a igualdade e especialmente a justiça”[7].

Papa Francisco recebe líder das invasões de terra João Pedro Stédile
Por sua vez, os ateliês de discussão do 2° Encontro concluíram, inter alios, que “os problemas do mundo do trabalho são estruturais, [pois] o modelo econômico capitalista procura uma altíssima rentabilidade a baixo custo”, devendo por isso ser substituído por “uma economia popular e social comunitária que resguarde a vida das comunidades [...] na qual prevaleça o companheirismo”. 

Afirmou-se igualmente que “a cidade pertence aos trabalhadores, [porque] foram eles que a construíram”, mas “atualmente são ocupadas pelos grandes capitais com interesses espúrios”, pelo qual se exige “a desapropriação, urbanização e regularização dos assentamentos informais e das vilas de emergência”, de onde “a necessidade urgente de articular uma reforma urbana e uma reforma agrária[8].

Declarações finais mais moderadas para fazer passar uma mensagem radical


No fim desses encontros é sempre aprovada uma declaração ligeiramente mais moderada. Seguem alguns exemplos.

A do primeiro Encontro afirma que “foram analisadas as causas estruturais da desigualdade e da exclusão”, chegando-se à conclusão de que “as raízes dos males sociais e ambientais” devem ser buscadas “na natureza injusta [não equitativa] e depredatória do sistema capitalista que coloca o lucro acima do ser humano”[9].

A “Carta de Santa Cruz”, do segundo Encontro, alega que se deve “superar um modelo social, político, econômico e cultural onde o mercado e o dinheiro se converteram nos reguladores das relações humanas em todos os níveis”, uma vez que “não queremos explorar, nem sermos explorados; não queremos excluir, nem sermos excluídos”.

Por isso, eles reafirmam o “compromisso com os processos de transformação e libertação [...] para dar vida às esperanças e às utopias que nos convocam a revolucionar as estruturas mais profundas de opressão, dominação, colonização e exploração”. 

O segundo encontro em Santa Cruz, Bolívia. Evo com Che Guevara.
O segundo encontro em Santa Cruz, Bolívia. Evo com Che Guevara no peito.
E acrescentam que impulsionarão “formas alternativas de economia”, ou seja, “uma economia popular e social comunitária” na qual “prevaleça a solidariedade acima do lucro”, o que se traduz em concreto numa “reforma agrária integral para distribuir a terra de maneira justa e equitativa”[10]

O último Encontro serviu para fazer “Propostas de Ação Transformadora que os Movimentos Populares do mundo assumimos em diálogo com o papa Francisco”. 

Elas são principalmente uma crítica das democracias ocidentais e um chamado a uma “democracia participativa”, nos moldes chavistas: 

“As chamadas democracias representativas, cada vez mais representam as elites corporativas, o capital, os Bancos” e, por isso, é preciso projetar “iniciativas legislativas que promovam uma democracia participativa, na qual o protagonismo seja do povo”. 

Quanto às migrações, deve-se “reclamar a existência de uma cidadania universal, que dilua as fronteiras e estabeleça uma política migratória inclusiva”, criando “tribunais internacionais de opinião, com a capacidade de impor sanções éticas e simbólicas para gerar consciência em nível internacional”.

No plano econômico-social, transparece melhor a meta comunista, pois almejam “a democratização do solo e a restruturação da propriedade da terra, para que ela seja distribuída entre aqueles que a trabalham”, para o que é preciso “avançar rumo à existência de formas de propriedade coletiva, que evitem sua mercantilização e uso lucrativo. […] 

A terra deve ser de propriedade coletiva e garantir o cumprimento de sua função social que é alimentar e dar vida ao povo”[11].

De 16 a 19 de fevereiro de 2017 realizou-se na cidade de Modesto, na Califórnia, o “Primeiro Encontro de Movimentos Populares dos Estados Unidos”. 

Sua mensagem dizia que “o racismo e a supremacia da raça branca são o pecado original que faz com que a sociedade [norte-]americana seja excepcional.

Eles continuam justificando um sistema capitalista sem regulações que idolatra a acumulação de riqueza acima das necessidades humanas”[12]

Militantes chavistas atacando opositores em ato eleitoral
Militantes chavistas atacando opositores em ato eleitoral

A Igreja assume oficialmente a agenda dos “movimentos populares”


Os Encontros têm sido patrocinados pelo hoje dissolvido Conselho Pontifício Justiça e Paz, bem como pelo enorme Dicastério para a Promoção Humana Integral, ambos presididos pelo cardeal Peter Turckson, que vê nesses Encontros “um grande diálogo que perpetuará no tempo [...] a coordenação entre os movimentos de base e a Igreja em todos seus níveis”, para que os marginalizados sejam “os protagonistas das mudanças econômicas, sociais, políticas e culturais que se mostram imprescindíveis”. 

Por isso, “a Igreja pretende tomar as necessidades e aspirações dos movimentos populares como próprias[13]

Em uma conferência posterior, o purpurado ganense explicou que tais movimentos sociais “promovem um estilo de vida alternativo” que rejeita “o consumismo, o desperdício e o paradigma tecnocrático”, procurando “formas comunitárias de organização do trabalho, da terra e da vivenda”. 

E, numa retórica que nenhum marxista rejeitaria, concluiu: “Não querem explorar nem serem explorados, excluir nem serem excluídos”[14]

Também o Papa Francisco, nas alocuções que dirigiu aos participantes de cada um desses Encontros, parece não desprezar esse tipo de retórica, pois renovou os apelos para mudar radicalmente as estruturas socioeconômicas atuais, baseadas na propriedade privada e na livre iniciativa, apesar de seus aspectos condenáveis não provirem dessas últimas, mas apenas de determinados excessos.

No primeiro Encontro, ele disse que “quer acompanhá-los nessa luta”, porque “nós cristãos temos [...] um programa, poderíamos dizer, revolucionário”, baseado na solidariedade, que consiste em “pensar e agir em termos de comunidade”, de “prioridade da vida de todos sobre a apropriação dos bens por parte de alguns”, pelo que é necessário “lutar contra as causas estruturais da pobreza, a desigualdade, a falta de trabalho, a terra e a casa, a negação dos direitos sociais e laborais”[15]. 

Segundo Ignacio Ramonet, acima citado, essa intervenção confirma “o novo papel histórico do Papa Francisco como abandeirado solidário da luta dos pobres da América Latina e dos marginalizados do mundo”[16].

Ao discursar em Santa Cruz de la Sierra durante o segundo Encontro, o Papa Francisco sublinhou que os problemas da América Latina e do mundo têm um “elo invisível” e uma “matriz global” que é “a lógica do lucro a todo o custo”, pela qual “o capital se torna um ídolo” e “a avidez do dinheiro domina todo o sistema socioeconômico, arruína a sociedade, condena o homem, transforma-o em escravo”. 

Francisco com líderes de movimentos sociais do mundo inteiro
Francisco com líderes de movimentos sociais do mundo inteiro
Tal sistema esquece que “o destino universal dos bens [...] é uma realidade anterior à propriedade privada”, a qual “deve estar sempre em função das necessidades das pessoas.” 

Assim, “é preciso dizer sem medo: ‘Queremos uma mudança, uma mudança real, uma mudança de estruturas’”, uma “mudança redentora[17].

No seu discurso aos participantes do último Encontro, posterior aos atentados que ensanguentaram a Europa, o Papa fustigou “um terrorismo de base que provém do controle global do dinheiro” e cuja raiz é “aquela estrutura injusta que une todas as exclusões que vós padeceis”, a qual “escraviza, rouba a liberdade, golpeia sem misericórdia” para “abater todos como reses”[18] .

Em carta aos participantes do Encontro regional nos Estados Unidos, após agradecer ao cardeal Turckson “por continuar acompanhando os movimentos populares” desde seu novo Dicastério, o Papa Francisco escreveu: 

“Faz tempo que enfrentamos a crise do paradigma imperante, um sistema que causa enormes sofrimentos à família humana para sustentar a tirania invisível do Dinheiro que somente garante os privilégios de uns poucos”[19].

Oxigênio para uma esquerda marxista em apuros


Que efeito prático para o avanço das correntes de esquerda marxista e pós-marxista têm essa pregação revolucionária do Papa Francisco e a colaboração do Vaticano com os movimentos populares? 

Por ocasião do primeiro simpósio em Roma, numa reunião paralela de movimentos altermundialistas, o ativista João Pedro Stédile havia declarado que “no atual contexto histórico, a correlação de forças em nível de luta de classes é bastante desfavorável às classes trabalhadoras” e que “o mundo vive um período de refluxo do movimento de massa”. 

Mas, inspirando-se na “escola dos marxistas históricos britânicos”, o líder do MST confiava em que o atual período de refluxo fosse também um “período de resistência... prelúdio de um processo de retomada”, para a qual seria preciso que “a classe trabalhadora se reúna em nível internacional”[20].

Após a realização desses três Encontros, Stédile poderia muito bem dizer: “Missão cumprida!”.

É o que, entusiasmado, exclama o advogado marxista Juan Grabois, consultor do dicastério para o Desenvolvimento Humano Integral, coordenador dos cartoneros de Buenos Aires e do Encontro Mundial de Movimentos Populares, na sua apresentação dos principais documentos publicados por este último organismo:

Encontro promovido pelo Vaticano foi ocasião para propaganda política lulopetitsta
Encontro promovido pelo Vaticano foi ocasião para propaganda política lulopetitsta
“Francisco atualizou o sentido da opção preferencial pelos pobres esclarecendo que ela implica não somente solidarizar-se com eles, mas reconhecê-los como sujeito social e político, promover seu protagonismo em todos os campos, acompanhá-los sempre a partir de sua própria realidade e nunca a partir de esquemas ideológicos abstratos. 

Em outras palavras, não se trata simplesmente de trabalhar pelos pobres, senão de lutar com os pobres contras as causas estruturais da desigualdade e da injustiça

Nesse sentido, as contribuições de Francisco ao pensamento popular — entre elas os dois discursos aos movimentos populares que se oferecem nesta edição — não somente têm renovado a doutrina social da Igreja, mas são hoje uma ferramenta sem preço para a atualização teórica e doutrinária dos que aspiramos para a transformação estrutural da sociedade e a superação do capitalismo[21].

O conhecido jornal virtual romano Il Manifesto, o único na Itália a colocar na epígrafe “Quotidiano comunista”, incluiu em uma das suas edições de outubro de 2017, como preparação ao centenário da Revolução Russa, um livro contendo os três discursos do Papa Francisco aos movimentos populares. 

A diretora explicou o motivo ao jornal dos bispos, Avvenire: “Porque consideramos como nossas essas mensagens do Papa e queremos levar aos nossos leitores o radicalismo e a simplicidade dessas palavras”[22]

No livro editado por Il Manifesto, Juan Grabois e Alessandro Santagata não escondem que boa parte dos movimentos populares opõe-se à Igreja em questões como o aborto ou os direitos homossexuais[23].

Como não dar razão ao artigo “Como o Papa Francisco se tornou o líder da esquerda global”, publicado por Francis X. Rocca no Wall Street Journal de 22 de dezembro de 2016[24]?

NOTAS

[6] http://www.movimientospopulares.org/wp-content/uploads/2016/11/pepemujica4.mp3 Essa não foi a única apologia à guerrilha, posto que no segundo dia do primeiro Encontro, Víctor Hugo López Rodríguez,  diretor do Centro de Direitos Humanos Frei Bartolomé de Las Casas, sediado em Chiapas, fez a apologia do Exército Zapatista de Libertação Nacional (do Comandante Marcos), o qual “rebelou a memória para irromper na história e começar a construir um mundo com justiça e dignidade” (http://mosvimientospopulares.org/wp-content/uploads/2014/10/DPI-Vaticano_Frayba.pdf ). E durante uma das sessões do terceiro Encontro, a ativista argentina Alejandra Díaz, representando a revista La Garganta poderosa, declarou que “viemos com o pensamento e a utopia do Ché Guevara, desejando que tenhamos um mundo melhor para todos, não somente para nós ou para uns poucos, um mundo que seja realmente igualitário para todos” (http://movimientospopulares.org/wp-content/uploads/2016/10/Alejandra_Diaz._Argentina2-online-audio-converter.com_.mp3)

Excerto do livro: “A mudança de paradigma do Papa Francisco: continuidade ou ruptura na missão da Igreja? Relatório de cinco anos do seu pontificado” Veja o texto completo no site do Instituto Plinio Corrêa de Oliveira



segunda-feira, 9 de julho de 2018

Cinco anos de pontificado: Promoção da agenda neomarxista e altermundialista dos “movimentos sociais”

Na Bolívia, o ditador Evo Morales presenteia o Papa  uma foice e martelo sobre a qual o Santíssimo Redentor está crucificado
Na Bolívia, o ditador Evo Morales presenteia o Papa
uma foice e martelo sobre a qual o Santíssimo Redentor está crucificado
José Antonio Ureta
Membro fundador da “Fundación Roma”,Chile;
membro da “Société Française pour la Défense
de la Tradition, Famille et Propriété”;
colaborador do Instituto Plinio Corrêa de Oliveira
e autor do livro: “A mudança de paradigma
do Papa Francisco: continuidade ou ruptura
na missão da Igreja?
Relatório de cinco anos do seu pontificado”.










Excerto do livro: “A mudança de paradigma do Papa Francisco: continuidade ou ruptura na missão da Igreja? Relatório de cinco anos do seu pontificado” Veja o texto completo no site do Instituto Plinio Corrêa de Oliveira



Para a doutrina católica, o comunismo é “intrinsecamente perverso”[1]. Porém, movimentos marxistas e regimes de esquerda do mundo inteiro veem no Papa Francisco um ponto de referência. 

O atual pontífice tem-se de fato mostrado muito próximo das reivindicações desses grupos ou governos. 

A despeito dos resultados desastrosos do “socialismo real” por exemplo, o martírio de muitos cristãos e a difusão da miséria e de seu caráter antinatural, Francisco tem afirmado várias vezes que o comunismo roubou a bandeira do Cristianismo na luta a favor dos pobres, dando a impressão de que se trata de uma ideia que, afinal de contas, é bem intencionada. 

E a geopolítica vaticana parece hoje cultivar um relacionamento privilegiado com regimes que da Venezuela até a China se inspiram mais ou menos diretamente no socialismo real, qualificado no pontificado de João Paulo II de “vergonha de nosso tempo” pelo então cardeal Joseph Ratzinger no célebre documento “Libertatis Nuntius”, o qual condenava a Teologia da Libertação. 


Em uma conferência de imprensa logo após sua visita ao Vaticano, o ditador cubano Raúl Castro declarou: 

“Leio todos os discursos do Papa. Se seguir assim, eu voltarei para a Igreja Católica, mesmo sendo membro do Partido Comunista.”[2] 

Simples recuperação política[3]? Ou as posições do Papa são realmente próximas do comunismo?

Eis a questão.


O Papa Francisco tem-se defendido repetidamente da acusação de ser comunista com o argumento de que se limita a defender os pobres contra as injustiças de que são vítimas. Entretanto, em diversas ocasiões, ele tem manifestado amizade por personalidades comunistas e parece julgar que o único erro do marxismo consiste no fato de querer transformar a luta dos pobres em ideologia.

Propensão a simpatizar com o comunismo



Eugenio Scalfari, ateu confesso e fundador do jornal italiano laicista La Repubblica, teve alguns encontros de diálogo com o Papa, relatados depois por ele em artigos que causaram sensação. Scalfari afirmou não ter gravado, mas apenas anotado tais conversas[4]

Após um encontro no dia 7 de outubro de 2016, ele relata o seguinte diálogo: “O senhor sonha com uma sociedade dominada pela igualdade. Isso, como o senhor sabe, é o programa do socialismo marxiano e depois do comunismo. O senhor pensa então numa sociedade de tipo marxiano?” 

Resposta do Papa Francisco: “Muitas vezes foi dito e minha resposta sempre tem sido que, em todo caso, são os comunistas que pensam como cristãos. Cristo falou de uma sociedade na qual são os pobres, os fracos, os excluídos que devem decidir. Não os demagogos, não os Barrabás, mas o povo, os pobres, tenham ou não fé no Deus transcendente, são eles que devemos ajudar para obter a igualdade e a liberdade”[5].
 
Uma jornalista do Il Messagero lhe diz: “O senhor passa por ser um Papa comunista, pauperista, populista. O Economist, que lhe dedicou uma capa, afirma que o senhor fala como Lenin. O senhor se reconhece nessas roupagens?”. 

O Papa responde: “Eu digo apenas que os comunistas roubaram a bandeira. A bandeira dos pobres é cristã. A pobreza está no centro do Evangelho. Tomemos Mateus 25 (...) ou olhemos as Bem-aventuranças, outra bandeira.  

Os comunistas dizem que tudo isso é comunista. Sim, claro, vinte séculos depois. Então, quando eles falam, poder-se-ia lhes dizer: mas vocês são cristãos (ri)”[6].
Papa Francisco e Evo Morales vestindo uma jaqueta
com desenho do sanguinário 'Che' Guevara.
Santa Cruz de la Sierra, 09-07-2015
Em uma entrevista com cinco jovens belgas, reafirmando seu amor pelos pobres, afirmou: 

“Precisamente por isso, dois meses atrás, uma pessoa disse: ‘Esse Papa é comunista!’ Não! Essa é uma bandeira do Evangelho, não do comunismo. É a pobreza sem ideologia (...) Basta ler o Evangelho. O problema é que ao longo da história, algumas vezes essa atitude para com os pobres tem sido convertida em ideologia”[7]

Num livro-entrevista com o intelectual francês Dominique Wolton, ele repetiu: “Disseram-me uma vez: ‘Mas o senhor é comunista!’ Não. Os comunistas são os cristãos. Foram os outros que nos roubaram a bandeira!”[8]
Durante uma entrevista com o vaticanista Andrea Tornielli, publicada no jornal La Stampa, de Turim, à pergunta “que efeito lhe faz ver-se definido como ‘marxista’?”, respondeu: 

“A ideologia marxista é errada. Mas na minha vida tenho conhecido muitos marxistas bons como pessoas, e por isso não me sinto ofendido”[9] .
De fato, em entrevista com Marcelo López Cambronero e Feliciana Merino, autores de Francisco, o papa manso, ele teceu muitos elogios a Esther Ballestrino de Careaga, uma exilada paraguaia comunista que foi seu chefe em um laboratório e que o introduziu no pensamento político, ajudando-o a ter uma consciência clara de que o capitalismo é essencialmente injusto[10].
Por sua vez, no livro Conversaciones con Jorge Bergoglio, de Sergio Rubin e Francesca Ambrogetti, o Papa, falando de sua juventude, declara: 

“Minha cabeça não estava posta apenas nas questões religiosas... Lia Nuestra Palabra y Propósitos, uma publicação do partido comunista, e encantavam-me todos os artigos de um de seus conspícuos membros [...] Leónidas Barletta”[11].
E no já citado livro-entrevista com Dominique Wolton, perguntado se depois da infância e da adolescência tinha encontrado mulheres que o marcaram, respondeu, referindo-se a Esther Ballestrino: 

“Sim. Houve uma que me ensinou a pensar a realidade política. Ela era comunista. (...) Ela me dava livros, todos comunistas, mas ela me ensinou a pensar a política. Devo tanto a esta mulher. (...) Devo muito a esta mulher, porque é a mulher que me ensinou a pensar. (...) Esta mulher realmente me ensinou a pensar”[12]
O crucifixo marxista blasfemo, símbolo da aliança do comunismo bolivariano e o pontificado de Papa Francisco
O crucifixo marxista blasfemo, símbolo da aliança
do comunismo bolivariano e o pontificado de Papa Francisco

“A desigualdade é a raiz dos males sociais”

De fato, para o Papa Francisco o ideal cristão é o de uma sociedade sem classes sociais. 

A um menino da Fábrica da Paz que lhe perguntou: “Papa, segundo a tua opinião, seremos um dia todos iguais?”, ele respondeu: “A esta pergunta se pode responder de duas maneiras: somos todos iguais — todos! — mas não nos reconhecem essa verdade, não nos reconhecem essa igualdade e por isso alguns são mais — digamos a palavra, mas entre aspas — ‘felizes’ que os demais. Mas isso não é um direito! Todos temos os mesmos direitos! Quando não se vê isso, essa sociedade é injusta. Não vive segundo a justiça.”[13]


Na sua exortação apostólica Evangelii gaudium, na seção “Não à desigualdade social que gera violência”, o Papa Francisco afirma que “enquanto não se eliminar a exclusão e a desigualdade dentro da sociedade e entre os vários povos será impossível desarraigar a violência”, e acrescenta que “isto não acontece apenas porque a desigualdade social provoca a reação violenta de quantos são excluídos do sistema, mas porque o sistema social e econômico é injusto na sua raiz”. 

E ainda que “a desigualdade social gera uma violência que as corridas armamentistas não resolvem nem poderão resolver jamais”[14]

Em resumo, para ele, “a desigualdade é a raiz dos males sociais[15], destoando da doutrina social católica, a qual ensina que a raiz de todos os males (inclusive dos males sociais) é o pecado, e que a igualdade essencial dos homens — todos igualmente filhos de Deus e herdeiros do Céu — não se opõe à desigualdade acidental resultante de seus variados talentos, diligência, educação e condição[16].

Promoção da Teologia do Povo e da Teologia da Libertação


Não é de estranhar que sendo favorável a uma sociedade sem classes, o Papa Francisco simpatize com a Teologia da Libertação, sobretudo na sua versão argentina, a qual é conhecida como “Teologia do Povo”[17] e foi idealizada por dois de seus mestres, os sacerdotes Lucio Gera[18] e Juan Carlos Scannone[19]

Papa Francisco com o ditador do Equador Rafael Correa,
hoje procurado pela Interpol
A única diferença com as outras versões dessa teologia errônea é que, em lugar de atribuir o papel de força propulsora na construção do “Reino” a agrupações políticas ou sindicais de esquerda — em geral laicistas —, a corrente argentina da Teologia da Libertação tem uma matriz gramsciana e um viés terceiro-mundista/peronista, atribuindo esse papel revolucionário ao próprio povo latino-americano em luta contra o imperialismo anglo-saxão[20] e reconhecendo no dinamismo de suas crenças religiosas o maior potencial revolucionário[21].

A preferência pela Teologia do Povo argentina levou o Papa Francisco a “reabilitar” o fundador de sua matriz — ou seja, a Teologia da Libertação —, o sacerdote Gustavo Gutiérrez, recebendo-o em audiência privada no Vaticano apenas seis meses após sua eleição[22]

Ele também deu um prefácio de próprio punho e letra ao livro Pobre para os pobres. A missão da Igreja, escrito pelo cardeal Gerhard Müller, discípulo do Pe. Gutiérrez, o qual contém uma colaboração deste último. 

Na ocasião de sua apresentação, o Pe. Federico Lombardi, então porta-voz da Santa Sé, declarou que a Teologia da Libertação “entrou agora definitivamente na normalidade da vida da Igreja”[23]

Antes disso, a partir de setembro de 2013, o Osservatore Romano já tinha começado a dedicar amplo espaço aos escritos de Gustavo Gutiérrez[24].
NOTAS

[1] “O comunismo é intrinsecamente perverso e não se pode admitir em campo nenhum a colaboração com ele, da parte de quem quer que deseje salvar a civilização cristã. E, se alguns, induzidos em erro, cooperassem para a vitória do comunismo no seu país, seriam os primeiros a cair como vítimas do seu erro” (Pio XI, encíclica Divini Redemptoris, n° 58, https://w2.vatican.va/content/pius-xi/pt/encyclicals/documents/hf_p-xi_enc_19370319_divini-redemptoris.html)
[3] Detalhes sobre o significado do encontro entre o Papa Francisco e Raúl Castro encontram-se em Armando Valladares, “Francisco, el nuncio y el tirano”, 12-05-2015, in http://www.cubdest.org/1506/c1505castrorom.htm
[4] Após a primeira entrevista com Eugenio Scalfari, o Padre Lombardi, na época porta-voz do Vaticano, disse que as palavras que apareciam entre aspas na Repubblica eram uma reconstituição de memória, pelo que não todas as expressões referidas podiam ser atribuídas com segurança ao Papa. Ocorre que Scalfari, num colóquio internacional de jornalistas, contou que antes de publicar a entrevista enviou-a ao Papa e obteve a aprovação para a publicação de seu secretário, fato jamais desmentido.  Mais ainda, as frases controvertidas foram todas retranscritas ipsis litteris e sem nenhuma modificação no Osservatore Romano, no livro Entrevistas e conversações com os jornalistas, publicado pela Livraria Editrice Vaticana, e no site do Vaticano onde estiveram on-line vários meses, com o que órgãos oficiosos da Santa Sé têm dado crédito à verossimilhança de seu conteúdo. É digno de nota que o Papa Francisco nunca desmentiu formalmente as palavras a ele atribuídas por Eugenio Scalfari, apesar da perplexidade expressa por muitos fiéis, que legitimamente interpretam seu silêncio como uma aprovação: qui tacet consentire videtur.
[8] Dominique Wolton, Politique et société : Pape François, rencontres avec Dominique Wolton, ed. L’Observatoire, Paris, 2017, p. 227.
[11] Sergio Rubin y Francesca Ambrogetti, El Papa Francisco. Conversaciones con Jorge Bergoglio, p. 50.
[12] Dominique Wolton, Politique et société : Pape François, rencontres avec Dominique Wolton, ed. L’Observatoire, Paris, 2017, pp. 376-377 e 379.
[15] Ibid.
[16] Ensina Leão XIII: “Ninguém duvida que todos os homens são iguais uns aos outros, tanto quanto se refere à sua origem e natureza comuns, ou o fim último que cada um deve atingir, ou os direitos e deveres que são daí derivados. Mas, como as habilidades de todos não são iguais, como um difere do outro nos poderes da mente e do corpo, e como há realmente muitas dessemelhanças de maneiras, disposição, e caráter, é extremamente repugnante à razão esforçar-se por confinar todos dentro da mesma medida, e estender completa igualdade às instituições da vida civil” (Encíclica Humanum Genus, http://w2.vatican.va/content/leo-xiii/pt/encyclicals/documents/hf_l-xiii_enc_18840420_humanum-genus.html).
[17] Para uma visão sumária da origem e propostas da Teologia do Povo, ver a entrevista com Juan Carlos Scannone in http://www.ihu.unisinos.br/159-noticias/entrevistas/542642-o-papa-francisco-e-a-teologia-do-povo-entrevista-especial-com-juan-carlos-scannone
[18] Em testemunho de simpatia e reconhecimento pelo seu trabalho, Jorge Mario Bergoglio, então cardeal-arcebispo de Buenos Aires, fez enterrar o Pe. Lucio Gera na cripta da catedral de Buenos Aires.
[19] “Juan Carlos Scannone é jesuíta, foi professor de diversas universidades latino-americanas e europeias, incluindo a Pontifícia Universidade Gregoriana. É ex-reitor da Faculdade de Filosofia e Teologia de San Miguel, da Universidade del Salvador. É considerado o maior teólogo argentino vivo. Discípulo de Karl Rahner, participou como protagonista da evolução do intenso debate pós-conciliar na América Latina” (http://www.ihu.unisinos.br/184-conferencistas/574652-prof-dr-juan-carlos-scannone-argentina).
[20] “Embora não tome a luta de classes como ‘princípio hermenêutico determinante’ da compreensão da sociedade e da história, [a Teologia do Povo] dá lugar histórico ao conflito — mesmo de classe —, concebendo-o a partir da unidade prévia do povo. Desse modo, a injustiça institucional e estrutural é compreendida como traição a este por uma parte do mesmo, que se converte assim em antipovo”, afirma Juan Carlos Scannone na entrevista citada em nota anterior.
[21] Na entrevista com Dominique Wolton, Francisco explica a diferença: “Nos anos 1980 havia uma tendência à análise marxista da realidade, mas depois foi renomeada como a ‘teologia do povo’. Não gosto muito do nome, mas é assim que a conheci. Ir com o povo de Deus e fazer a teologia da cultura. Há um pensador que o senhor deveria ler: Rodolfo Kusch, um alemão que vivia no nordeste da Argentina, um muito bom filósofo e antropólogo. Ele me fez compreender uma coisa: que a palavra ‘povo’ não é uma palavra lógica. É uma palavra mítica. Não se pode falar de povo logicamente, porque seria somente fazer uma descrição. Para compreender um povo, compreender quais são os valores desse povo, é preciso entrar no espírito, no coração, no trabalho, na história e no mito de sua tradição. Esse ponto está verdadeiramente na base da teologia chamada ‘do povo’. Quer dizer, ir junto com o povo, ver como se exprime” (op. cit., pp. 47-48). Comentando essa passagem, o vaticanista Sandro Magister acrescenta um dado interessante: “Kusch se inspirou na filosofia de Heidegger para distinguir entre ‘ser’ e ‘estar’, qualificando com a primeira categoria a visão racionalista e dominadora do homem ocidental e, com a segunda, a visão dos povos indígenas latino-americanos em paz com a natureza que os rodeia e animados justamente de um ‘mito’” (http://magister.blogautore.espresso.repubblica.it/2017/09/18/il-mito-del-pueblo-francesco-svela-chi-glielo-ha-raccontato/).’
[22] Ademais, em agosto de 2014, o Papa Francisco derrogou a suspensão a divinis do exercício sacerdotal dos sacerdotes Ernesto Cardenal, Fernando Cardenal, Miguel d'Escoto e Edgard Parrales, ministros “liberacionistas” do governo sandinista da Nicarágua, a qual havia sido imposta por João Paulo II em 1984. (http://www.periodistadigital.com/religion/opinion/2017/06/27/religion-iglesia-opinion-saturnino-rodriguez-la-teologia-de-la-liberacion-iii-teologia-de-la-liberacion-en-la-actualidad-futuro-esperanzado-papa-francisco.shtml).


Continua no próximo post: Papa Francisco salvando esquerdas marxistas sem oxigênio

Excerto do livro: “A mudança de paradigma do Papa Francisco: continuidade ou ruptura na missão da Igreja? Relatório de cinco anos do seu pontificado” Veja o texto completo no site do Instituto Plinio Corrêa de Oliveira