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O Papa com o arcebispo argentino Marcelo Sánchez Sorondo, articulador de atividades com "movimentos sociais" da vertente ideológica do MST |
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Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de política internacional, sócio do IPCO, webmaster de diversos blogs |
continuação do post anterior: A Argentina está chocada pelos gestos políticos do Papa Francisco – 2
O impacto da revelação do caso de Margarita ainda não tinha se apagado quando a imprensa internacional divulgou que numa reunião com os bispos do Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM) o Papa Francisco disse que em alguns países da América do Sul está ocorrendo “um golpe de estado branco”.
Ele manifestou preocupação com os “conflitos sociais, econômicos e políticos” na Venezuela, no Brasil, na Bolívia e na Argentina. Cfr. “O Dia”.
A notícia foi surpreendente: na Argentina, a comparação com a Venezuela foi chocante e a interpretação da realidade do Brasil soou como uma tomada de atitude favorecedora da propaganda internacional do PT.
Logo chegou, por vias terceiras, um desmentido do Vaticano: um sacerdote amigo que teria recebido um telefonema do Papa Francisco desmentindo, etc.
A comoção ainda perdurava quando Francisco recebeu, à testa de seu grupo, a líder pró-comunista das “Mães da Praça de Maio”, Hebe de Bonafini, movimento investigado por confusos desvios metódicos de verbas largamente outorgadas pela presidência kirchnerista.
“Não vim’ falar com o Papa Francisco como ‘Mãe’. Eu lhe disse que em cinco meses o governo Macri destruiu aquilo que vivemos como povo feliz nos doze anos anteriores. Em nossa Pátria há muita violência institucional e da outra”, declarou Bonafini ao jornal “Clarín”.
Segundo as versões, a recepção durou de “mais de uma hora” até duas, contrastando com os meros 22 minutos concedidos de má vontade ao presidente Macri.
Na saída, Bonafini disse à radio Del Plata, de Buenos Aires, que “o Papa me falou que está triste e que isto lhe faz lembrar 55” (1955), ano em que o ditador Perón foi destituído por um golpe militar e a sociedade ficou dividida entre peronismo e antiperonismo.
Bonafini parafraseou a leitura de luta de classes da sociedade argentina, dizendo que os “pobres” não estão podendo pagar o pão e os “ricos” continuam comendo “pão bom”, que “isso é violência”, que o governo “negocia a instalação de duas bases ianques”, que diariamente 1.200 trabalhadores perdem o emprego, e que professores aposentados não podem pagar os serviços públicos, etc.
Hebe de Bonafini também aproveitou a oportunidade para invectivar a Justiça argentina, deblaterando contra os “juízes corruptos que perseguem a Cristina e querem prendê-la”.
Em testemunho da veracidade do que denunciava, disse que “não viemos contar mentiras” para o Papa. Ela completou reconhecendo ser verdade que o governo foi eleito pelo povo, “mas certas vezes os povos nos equivocamos”.
A comparação com a polarização após a queda de Perón em 1955 foi geralmente interpretada como manifesto exagero, e o desmentido, sempre por vias terceiras, vindo de Roma, não foi aceito, considerando a pluralidade de fontes diversas que disseram ter ouvido a frase do Papa.
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Hebe de Bonafini teme a Justiça argentina |
No início de junho, o jornal “Clarín” publicou os resultados de uma sondagem feita por Management & Fit, por ocasião dos seis primeiros meses do novo presidente.
O trabalho consultou 2.000 pessoas que interrogadas si acreditavam que o Papa Francisco tem uma atitude mais próxima de algum grupo político, 42,2% optou por “sua atitude é mais próxima ao kirchnerismo” e só 2,7% “mais próxima ao macrismo”, os restantes se distribuíram em genéricos “a mesma para todos” ou “não sabe/não contesta”.
Por sua parte, o Pontífice mandou devolver uma doação de um milhão de dólares para a Fundação Scholas Occurrentes que ele próprio promove para a educação escolar católica.
O gesto foi recebido geralmente como um ato de despeito em relação ao governo do presidente Macri.
Axel Kiciloff, ex-ministro de economia de Cristina Kirchner investigado pela Justiça, comemorou a recusa como um apoio político-ideológico:
“O governo de Macri vai na direção oposta da pregação do papa Francisco”, insistindo em que “seria raro que apoie a um governo que está fazendo o contrário de sua orientação no papado ... Para andar de boas com o Papa [Macri] tem que mudar suas políticas e deixar de governar para os ricos”, segundo noticiou “La Nación”.

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