segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Mordaça e repressão ideológica
até no futebol venezuelano

"Não há papel e não sabemos quando"
A degradação quotidiana: "Não há papel e não sabemos quando"
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs




A equipe da seleção argentina que foi participar dos jogos eliminatórios na Venezuela foi avisada para levar o essencial: papel de toilette e alimentos, embora tivesse reservado um hotel cinco estrelas, registrou o jornal “La Nación” de Buenos Aires.

Os jornalistas verificaram que a corrida de táxi de 10 minutos até o centro da cidade de Mérida, local do jogo, podia custar 600 bolívares (93 centavos de dólar), ou 1100, ou 900. Refrigerantes, cerveja, um prato de comida, todos os preços navegavam na incerteza.

Os habitantes explicavam que “tudo é relativo, os preços mudam todos os dias”. Único ponto de referência era o salário. A metade da população recebe o ordenado oficial de 22.576 bolívares (cerca de 100 reais) e mais 42 mil em bônus de alimentação.

O quilo de farinha de milho, alimento nacional por excelência, custa 190 bolívares, de acordo com os preços do governo, mas não se encontra: é preciso pagar entre 1.600 e 2.000 bolívares.

Um quilo de queijo no mercado negro custa entre 3.500 e 4.000 bolívares, o quilo de carne entre 3.800 e 4.500, o quilo de leite em pó, 5.000. Quatro rolos de papel higiênico custam na rua 1.800.

O FMI teme uma inflação de 700% neste ano.

A confusão é máxima quando se fala das taxas de câmbio, porque há três: as duas oficiais e a do mercado negro. A taxa oficial, para alimentos e remédios, é de 10 bolívares; para os demais produtos é de 646 bolívares.

O negro estaria estagnado em 1.000, mas é perigoso obtê-lo. Não há notas de bolívares para comprar: a nota mais alta é de 100 bolívares, que equivale a 15 centavos de dólar ou 48 centavos de real. É habitual ver pessoas circulando pelas ruas com grandes pacotes de notas.

“Hoje, o venezuelano só pensa em comida, nada de espairecimento ou lazer”, explicava Perozo, jornalista venezuelano de Maracaibo.

Comprar entradas para jogo de futebol era luxo reservado a poucos. Menos para os apaniguados do regime, para os quais a estatal do petróleo PDVSA repartia ingressos aos montes. O governo tinha um objetivo ideológico: evitar que das grades partisse o cântico “Este Gobierno va a caer”.

Por sua vez, segundo “La Nación”, os jogadores venezuelanos guardavam estarrecedor mutismo sobre a situação de miséria e doença que eles conhecem, com pacientes graves beirando a morte por falta de medicamentos.

O Estado assumiu as despesas e o controle da seleção “Vinotinto”. A maioria deles joga no exterior e não quer se expor a represálias por parte do governo.

A voz de qualquer dos jogadores mais conhecidos poderia suscitar uma onda de críticas. Salomón Rondón, que joga na Inglaterra, ousou dizer em entrevista ao “The Guardian” que “a vida em Caracas já não é vida. Você é assediado pela incerteza de ser morto, se você sai para trabalhar não sabe se volta para casa. É um caos. Eu sofro pela minha família, temo que sejam sequestrados. Quando vou visitá-los, tento passar despercebido, não ser visto por ninguém”.

Por causa dessa declaração, Rondón, ídolo da “Vinotinto” foi repreendido pelo presidente da Federação Venezuelana de Futebol, dependente do dinheiro do governo.
Jogadores assaltados. Todos temem as represálias do governo se dizerem algo
Jogadores assaltados. Todos temem as represálias do governo se dizerem algo.
E os jornalistas venezuelanos não se atrevem a interrogar os esportistas. Pois temem que por uma mera pergunta, o governo socialista lhes tire a licença para exercerem a profissão.

Ninguém foge da mordaça oficial, conclui “La Nación”.

A impunidade do crime organizado também ligado à máquina ideológica socialista piora as coisas. A delegação completa do clube Trujillanos foi sequestrada numa estrada durante duas horas e meia na semana prévia a um jogo pela Copa Sul-Americana.

O local fica a 240 quilómetros da capital Caracas, e a delegação foi despojada de todos seus pertences ficando de torso nu. Os criminosos agiram com armas de alto calibre e ameaçaram explodir o ônibus com granadas se havia algum sistema de localização satelital ligado, noticiou “Clarín”.


segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Ditadura chavista: vergonha do gênero humano
é triunfo da Teologia da Libertação - 2

Forças Armadas intervêm para reprimir famintos ou necessitados de remédios.
Forças Armadas intervêm para reprimir famintos ou necessitados de remédios.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
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diversos blogs




O Instituto Nacional de Estatísticas (INE) da Venezuela reconheceu – e seus números devem ser revistos para pior – que no primeiro semestre de 2015, 33,1% da população ou 2.434.035 famílias estão em situação de pobreza. E que 9,3% dessas – 83.370 famílias – estão na pobreza extrema.

O salário mínimo integral oficial, que inclui bolsas e bônus para a alimentação, é de 65.056 bolívares (203 reais, pela cotação do mercado paralelo, o único que funciona). Então muitos não conseguem comer durante todo o mês.

Não espanta, pois, que uma multidão enfurecida tenha perseguido o presidente venezuelano Nicolás Maduro, na pequena localidade de Villa Rosa, na turística ilha Margarita, como documentou “Público”, entre outros.

A ilha é um paraíso turístico, mas os hotéis não têm mais papel de toalete, sabonetes e insumos básicos, porque nem os proprietários têm. A frequência dos clientes caiu pela metade.

Ele foi inaugurar à noite um complexo de residências sociais, quando foi rodeado por populares, que ele de início julgou tratar-se de simpatizantes.

Quando se deu conta de que estava a ponto de ser linchado, a única saída que teve o “popular” presidente foi de sair correndo com as próprias pernas. Nas redes sociais foram colocados vídeos com as espantosas cenas.

Maduro foi recebido com uma “caçarolada” e gritos de que o povo tinha fome. Ele tentou falar com a multidão, mas gritaram-lhe obscenidades e começaram a persegui-lo, segundo descreveu o New York Times. Maduro chegou a arrebatar a caçarola de uma mulher que protestava.

A repressão se fez sentir logo. Perto de 30 pessoas foram detidas. Uma delas é Bráulio Jatar, diretor do jornal online Reporte Confidencial, o primeiro a divulgar a notícia e os vídeos da perseguição ao presidente.






Em Caracas, a oposição reuniu por volta de um milhão de pessoas no protesto denominado “Tomada de Caracas”, e anunciou marchas similares em todo o país.

“As panelas vão continuar a fazer-se ouvir, é uma forma de protesto pacífica! O que vão fazer? Tirar as panelas do povo?”, intimou, no Twitter, um dos líderes da oposição, Henrique Capriles.

Degradantes brigas para conseguir alimentos controlados pelo socialismo.
Degradantes brigas para conseguir alimentos controlados pelo socialismo.

Compreende-se o que ele quis dizer, mas a paranoia do governo bolivariano pode chegar ao absurdo de confiscar as panelas, como já o fez o maoísmo na China no Salto Adiante.

O ministro da Informação, Luis Marcano, divulgou um vídeo no Twitter de Maduro, apresentando-o com o punho erguido, mandando beijinhos e sendo aplaudido em Margarita.

O mesmo Ministério da Informação divulgou fotos truncadas de anos anteriores como se fossem da manifestação de apoio a Maduro e contra a “Tomada de Caracas”, quando a manifestação governamental reuniu na realidade apenas um punhado de chavistas pagos.



segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Ditadura chavista: vergonha do gênero humano
e triunfo da Teologia da Libertação - 1

Hospitais em estado miserável.
Hospitais em estado miserável.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs




O precipício da miséria induzida parece não ter atingido o fundo. Quando se diria que mais baixo não se pode cair, os ditadores socialistas inventam uma degradação maior.

Agora na Venezuela haverá um general-em-chefe encarregado do arroz, outro do frango, outro do óleo, até completar os 18 produtos alimentares e farmacêuticos básicos, segundo ordenou, no programa televisado “En contacto con Maduro”, o superministro da Defesa, Abastecimento e Produção, Vladimir Padrino López, informou “Clarin”.

O superministro está executando um programa desenhado pelo presidente Nicolás Maduro para fiscalizar as empresas privadas.

Na prática, a aplicação já está se vendo: a tropa confisca os produtos e os distribui entre os simpatizantes chavistas.

O ministro anunciou com ufania oca que “os objetivos de visita às empresas [de alimentos] e acompanhamento foram cumpridos a 100%”.

Agora a ofensiva ditatorial vai se concentrar na distribuição de remédios. “Não podemos permitir que a distribuição de medicamentos continue nas mãos dos privados tendo nós os meios que nos deixou o comandante Hugo Chávez”.

O presidente Maduro informou que já foram fiscalizadas 791 empresas em todo o território nacional.

O confisco atingirá também as sementes e o ministro anunciou que já está em formação uma brigada de 250 fiéis que porão logo mãos à obra.

A militarização do país triplicou sob a presidência do aliado do comunismo cubano.

Há 12 anos o falecido Hugo Chávez tinha tirado a tropa dos quartéis para venderem frango e tomate. O resultado está à vista, ou seja, já não se vê frango nem tomate.

As crianças venezuelanas andam de barriga inchada e quase a metade dos habitantes perdeu peso, segundo a Sociedade Venezuelana de Puericultura e Pediatria, acrescentou o jornal “Clarín”.

Huníades Urbina Medina, presidente dessa Sociedade, explicou que por causa da fome que destrói a saúde do povo, “vamos ter uma geração de deficientes físicos do ponto de vista cognitivo, morfológico e psicológico”.

Recém-nascidos em caixas de papelão no hospital de Barcelona, estado Anzoátegui.
Recém-nascidos em caixas de papelão no hospital de Barcelona, estado Anzoátegui.
“No hospital Domingo Luciani (no estado de Miranda) registramos entre 15 e 20 casos de desnutrição severa em um mês. O problema é que a criança não cresce nem se desenvolve, e quando tratada já não se recupera”, explicou.

“As famílias conseguem no máximo ter uma ou duas refeições por dia, e de muito má qualidade, puro carboidrato. Temos crianças que a gente vê gordas, mas que de fato estão inchadas porque estão retendo água por causa do consumo excessivo de farinhas”, acrescentou.

Pelo menos quatro crianças morreram de desnutrição severa no rico Estado petrolífero de Zulia. Uma criança de 18 meses perdeu a vida porque passou mais de 72 horas sem ingerir alimentos, segundo contou a mãe ao jornal “La Verdad”.

Não se encontram 85% dos alimentos e 95% dos remédios. A inflação pulou a 180% anual em 2015. Os analistas locais preveem que ela ascenderá a 700% ou mais neste ano.

As crianças são levadas à escola com a esperança de receberem algo para comer. Nos últimos meses, vários professores e pais de alunos contaram casos de alunos que desmaiaram de fome nas aulas.

No hospital Domingo Guzman Lander, no estado de Anzoátegui, a carência de incubadoras para os recém nascidos força a que eles tenham como berços caixas de papelão usadas.

A deprimente foto foi difundida nas redes sociais por Manuel Ferreira, diretor de Direitos Humanos da Mesa de Unidad Democrática (MUD), grupo político oposicionista, noticiou “Clarín”.